terça-feira, 21 de setembro de 2010

Um texto bem interessante que tem tudo a ver com o Lanterninha!!!!!


Alfabetizacão Audiovisual




Cinema, televisão, computador, videogame, tablet, celular. Telas que se multiplicam, acompanham e influenciam o desenvolvimento de crianças e jovens no mundo contemporâneo. Orktut, Twitter, MySpace, Facebook, Second Life, YouTube. Novas maneiras de se relacionar, construir o conhecimento, compartilhar, aprender, imaginar, fantasiar. Atribuir sentido aos fenômenos do cotidiano. Transmitir e representar seu universo imaginado.
Entre os temas mais relevantes pesquisados durante o processo de desenvolvimento do documentário Ctrl-Vestá o que os americanos chamam de “New Media Litteracies”, o que significa, ao pé da letra, “letramento para as novas mídias”. Estamos falando da utilização dos conteúdos, linguagens e instrumentos de comunicação do novo século em processos educativos.
Se antes o desafio da educação já era algo difícil e complexo, agora configura-se como uma zona muito mais desconfortável e cheia de incertezas, causada sobretudo por um choque de gerações, que distancia os professores de um universo íntimo dos alunos.
A alfabetização audiovisual, conjunto de atividades e processos educativos que utiliza o cinema, a televisão e as novas tecnologias de comunicação como forma de construir e compartilhar experiências e conhecimentos, auxilia a compreender o processo de manipulação e construção de imagens, em suas mais diversas linguagens, ideologias, gramáticas, formatos, discursos subliminares, ritmos e formas.
As possibilidades de aprendizado se multiplicam e enriquecem as experiências educativas, consolidando o processo de inclusão de todas as culturas, conhecimento e formas de expressão. Um desafio para todos nós.
Texto retirado do site: http://www.culturaemercado.com.br/headline/alfabetizacao-audiovisual/


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Semana passada, o Projeto Lanterninha realizou oficinas de vídeo em celular nas escolas atendidas pelo projeto. O intuito foi tanto que os cineclubistas atravessassem um processo de produção audiovisual compreendendo de dentro a linguagem cinematográfica quanto utilizar a escola como cenário para expressar o que eles têm a dizer sobre a educação.



No Renam Baleeiro (Águas Claras), apareceu coisas interessantes. Um dos filmes era um documentário-ficção de uma menina que passeava pela escola colando esparadrapos onde a escola estava doente. Pareceu-me que elas queriam dizer que a escola ainda tem jeito e vimos neste pequeno vídeo o desejo de ter uma escola de qualidade e com boas condições de saúde. Um outro, “Quem Cola Não Sai da Escola”, uma metáfora bem interessante para expressar as estratégias de pesca que os alunos tem para poder passar na prova. É uma história de terror de uma aluna que fica presa no banheiro, alucinando com fantasmas e ruídos porque foi pegar a pesca deixada lá por uma colega. Isto nos leva a pensar o sentido que avaliação tem para os alunos. E se realmente as provas e os testes vêm cumprindo a função para a qual foram inventados.






Parece que o cinema, quando realizado dentro da escola, evoca um imaginário construído cotidianamente pelos alunos, e quando eles têm à mão a possibilidade de poder expressa-lo saem coisas muito boas que são, também, pontos de vistas sobre a educação de nosso país e que a sociedade não tem tido acesso. Com certeza, ainda há muita coisa a ser elaborada e dita pelos alunos e alunas que constroem o dia a dia de nossa escola pública.

Com a voz, ou melhor, com a câmera, os discentes.


Por Marcelo Matos
Coordenador Pedagógico do Projeto Lanterninha


Para assistir os videos produzidos na oficina de celular, clique aqui

terça-feira, 31 de agosto de 2010

 CINECLUBISMO E A NOVA ESCOLA



Diz-se por aí que a escola é uma instituição fechada, que é uma instituição cercada por muros, que o que se ensina na escola de nada servirá para vida, que a escola está defasada, etc... Talvez esta seja uma visão unilateral: se a escola está fechada é porque a sociedade civil não a ocupa mais.

Nestes três anos, tentando criar cineclubes em 12 escolas públicas junto com alunos, professores, coordenadores e diretores o que venho observando é que todos aqueles que fazem a escola no seu dia a dia estão sozinhos. Lá dentro não vejo os artistas, não vejo os universitários, não vejo os pesquisadores, os pedagogos, nem os psicólogos, não vejo os capoeiristas, nem os sambadores de roda, nem os pais dos alunos... Acredito que não é a escola pública que é fechada, mas sim fomos nós, enquanto sociedade civil, que abandonamos a escola pública.

O grande barato do projeto Lanterninha é estar na contramão dessa tendência. Enquanto todos dizem que existem espaços de aprendizagem mais interessantes fora da escola, o Lanterninha assume a escola como um desafio por ser o espaço público de aprendizagem por excelência. Mesmo com muitas coisas jogando contra (nossa escola pública passa por um momento extremamente difícil), existe muitas coisas a favor dentro da escola (alunos, professores e diretores que ainda se sensibilizam com a arte) e não é a toa que temos, hoje, 12 cineclubes funcionando dentro de escolas públicas da cidade e mais de 20 mil espectadores que já assistiram diversos filmes nacionais.

O cineclube traz mais referências culturais para os alunos, pode tornar a aula no professor mais interessante, pode fazer com que os alunos permaneçam mais tempo nas escolas, principalmente quando há falta de professor. Porém, um cineclube dentro de uma escola pode ganhar uma função que extrapola o seu aspecto cultural ganhando uma dimensão política. A Utopia que um cineclube aponta é ser um espaço de interligação entre o dentro e o fora da instituição escolar.

Os cineclubes podem arejar o espaço da escola levando seus alunos e professores para outros espaços (outros cineclubes, festivais e seminários de cinema, cursos...) como trazer outras pessoas para dentro das escolas (psicólogos, cineastas, jornalistas, artistas...). Quantas pessoas, artistas, professores, intelectuais, não gostariam de serem convidados por alunos que adoram cinema para discutir filmes com eles? Quantos cineastas não gostariam de exibir seus filmes dentro das escolas e discutir seus filmes com os alunos e professores? Quanto isto seria saudável para a nossa educação e para o nosso cinema?

A construção de uma nova escola pública, talvez, só tenha início quando comecemos a estar por dentro dela.

E vamos levantando as cortinas, porque mais uma sessão vai começar!

Por: Marcelo Matos
Coordenador Pedagógico do Projeto Lanterninha
celo.matos@gmail.com

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

III Encontro Cineclubista Lanterninha


O terceiro Encontro Cineclubista Lanterninha foi pautado pelo tema: “A escola pública e o mito do heroi”. Após a exibição do filme Escritores da Liberdade na sala Walter da Silveira, migramos para a sala multi-uso da Dimas para configurar nossa roda de bate papo.  No caminho entre as duas salas, pausa para conferir uma exposição sobre clássicos do gênero de animação no audiovisual baiano.






Acomodados em um grande círculo, olho no olho, aos poucos vão surgindo as primeiras leituras do filme. Dois professores, que também são cineclubistas, deram seus depoimentos ainda emocionados com a trajetória de superação apresentada no filme. Na realidade todos saíram da sala de cinema enxugando as lágrimas.

Escritores da Liberdade é um filme do diretor americano Richard Lagravenese (2007), classificado como gênero de drama, baseado em fatos reais, cuja história se passa por volta de 1992, em Los Angeles (EUA) em um contexto de guerra urbana em seus bairros mais pobres, causados por gangues e motivados por tensões raciais. Uma professora de inglês novata se depara com uma turma de alunos que cumprem medidas sócio-educativas e estão na escola por ordem da justiça. A turma é muito diferente do sonho de educação que a jovem professora nutria quando buscou a escola que vivenciava um processo de integração, acolhendo jovens integrantes de gangues que naquele ano, guerreavam em Los Angeles.

O filme transcorre, com uma medida cada vez maior de emoção, pois nos aproxima do drama de vida de cada um dos adolescentes. Ao mesmo tempo que a camera nos coloca como um daqueles jovens sem esperança, dispostos a morrer tentando matar seus inimigos, distantes de qualquer perspectiva de futuro, somos colocados no ponto de vista da jovem professora que decide enfrentar um sistema educacional ultrapassado para oferecer aos seus alunos uma chance para a mudança. Devolver a esperança através da educação.

Para além da emoção, este filme foi escolhido para o Encontro, por lançar possibilidades infinitas de exploração do tema da educação, e principalmente questões a respeito da representação dos papéis de professor e aluno no cinema hollywoodiano.  A nossa proposta era de desconstrução do filme.




O mito do herói é a estratégia dramtúrgica escolhida para narrar a trajetória da professora novata em contato com esse universo violento. O filme apresenta os clichês mais conhecidos da indústria norte-americana e por isso garante um filme bem “redondo” a nossos olhos ocidentais. Aprender a descontruir um filme, mais do que considerá-lo bom ou ruim, nos dá a possibilidade de fruir com muito mais complexidade a obra colocada em questão. Perceber pontos de vista diferentes sobre o mesmo objeto, nos traz uma grande riqueza de pensamento. E foi isso que exercitamos no ultimo encontro.

Falamos desde o consenso sobre a emoção que o filme faz aflorar até nos mais precavidos e evoluímos para pensar que existe uma simplificação do processo educativo nos filmes da indústria norte-americana. No filme é creditado ao professor (o herói), a possibilidade de modificar a vida dos seus alunos, por maiores as dificuldades que ela precise ultrapassar para isso. A jovem professora para dar conta da transformação que tanto deseja, precisa conciliar três empregos simultâneos (para custear atividades extra), além de perder o marido por colocar a relação pessoal no plano do menos importante. Mas ela resiste a tudo impávida, afinal tem uma missão a cumprir.

Pessoalmente acho que essa é uma carga muito pesada para o professor, que mesmo sendo idealista e lutando contra as dificuldades abissais da sua profissão, precisa ter uma rede social que lhe dê suporte, precisa dos amigos e da família, seja ela como for. Não é à toa que a toda a mudança que a professora propõe aos alunos no filme, em momento nenhum dialoga com a realidade que eles encontram fora da sala de aula. Como lembrou Clissio (novo monitor do Projeto lanterninha), é como se aquele universo criado pela professora fosse uma bolha suspensa no ar, e não admitisse a entrada de novos elementos ou a relação com os outros mundos que habitam a escola.



No dia estavam presentes os professores Edvaldo e Rita, cineclubistas da Escola Parque, que com o idealismo e a paixão necessárias à profissão que lhes trazem sentidos, trouxeram a discussão para nosso contexto de educação pública no Brasil. Onildo, professor de história da Uneb relatou sua experiência ao ver o filme, e pensá-lo como dispositivo de reflexão para a realidade das escolas públicas que não deveria ser mitificada.

O momento final do Encontro foi dedicado a discutir questões técnicas da construção narrativa do filme, e a importância de estabelecermos uma instância crítica do que consumimos audiovisualmente.

Foi uma manhã muito animadora de debate. Como em todos os encontros, saímos com gostinho de quero mais e desta vez em especial, de posso mais. Posso sim, transformar o contexto à minha volta. Mais do que cair na sala de aula de uma professora tão virtuosa, nos cabe elaborar à duras penas uma educação de maior qualidade. A escola é um espaço de todos, vamos tomar assento e chegar mais.

Por: Tenille Bezerra
Coordenadora Executiva do Projeto Lanterninha
tenillebezerra@gmail.com

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Encontro Cineclubista da Walter da Silveira foi mais uma das ações de formação da rede de apoio ao cineclubismo que o Lanterninha tenta empreender. Foi uma manhã muito produtiva, com um debate que se estendeu até quase duas da tarde. Representantes de todos os cineclubes lanterninha estiveram presentes.

Logo no início tivemos a exibição do documentário "Encontro com Milton Santos, ou o mundo global visto do lado de cá", do diretor Silvio Tendler. O filme foi uma porta de entrada ao universo de transformação social que empreendemos através do cinema. O cineclubismo está diretamente ligado às questões culturais e sociais no nosso país, porque mais do que nunca, este movimento busca estabelecer o diálogo, através das obras audiovisuais, com a comunidade de onde fazem parte.  É uma forma de percebermos melhor o lugar que ocupamos no mundo, e a partir disso darmos o primeiro passo rumo à mudança para um novo contexto de vida mais igualitário, menos injusto.


Para lançar questões ao debate, contamos a presença de Tiago Tao, cineclubista e representante do CNC, que situou historicamente o movimento cineclubista e suas implicações na formação de novos modelos de construção e análise das obras audiovisuais. O querido Jorge Conceição, já parceiro do Lanterninha, também esteve presente contribuindo com o debate.




Ainda há muita estrada a percorrer. Ainda no mês de agosto, dois novos encontro cineclubistas acontecerão, proporcionando espaços de encontro e troca de idéias a respeito do cinelcube e seu potencial de ação. Programe-se, compareça!




Por: Tenille Bezerra
Coordenadora Executiva do Projeto Lanterninha
tenillebezerra@gmail.com

quinta-feira, 17 de junho de 2010


Também venho relatar as minhas sensações de um dia inesquecível no Colégio Estadual Landulfo Alves...
Em articulação com alguns professores foi marcada a sessão do documentário "Encontro com Milton Santos, ou O mundo global visto do lado de cá", do diretor Silvio Tendler para cerca de 5 turmas de primeiro e segundo ano. Foi a nossa primeira experiência com este filme em uma escola.

Primeiro a chuva que caía desde a noite anterior na cidade transtornou o horário combinado para a chegada do material para a sessão. A geografia da nossa cidade não combina muito com a pontualidade britânica. Chegar com o material era o início do que seria nossa aventurosa sessão cineclubista. Enquanto Déa escalava as paredes do auditório pregando o pano preto necessário para a penumbra que possibilitasse a projeção, verificávamos que todos os ar-condicionados do lugar estavam quebrados. Exibir um documentário para adolescentes em um auditório quente seria uma tarefa bem difícil... Nesse momento é que a união da equipe faz uma diferença. Em pouco tempo estava tudo organizado. Os meninos já entravam no auditório e distribuíam-se pelas cadeiras. A inquietude deles me remete ao tempo escolar. Sair da sala para uma atividade diferenciada é uma festa. Possibilidade de explorar as relações em outro ambiente, de se despojar ainda mais.  Com a sala já quase cheia, era hora de começar o filme.   Enquanto Mariano, um dos cineclubistas do Landulfo, apresentava o filme, comecei a notar mais detalhadamente, o ambiente da sessão.



O filme começa com uma citação de Jean Paul Sartre, e desde o primeiro take, ficou claro que aquela seria uma sessão agitada. Os meninos não se concentravam por diversos motivos. Haviam 10 jovens na frente da sala interessados no filme. Os outros 90 ouviam múscia, conversavam, bincavam, se abraçavam. Enquanto uma refinada leitura dos elementos que geraram as sociedades excludentes eram apresentados no filme, através do olhar de Milton Santos, nós nos dividíamos na tarefa de fazer os meninos perceberem que havia um tesouro sendo posto ali, bem diante dos seus olhos. Em vão.  Milton Santos buscava valorizar a história do presente, e nós tentávamos desesperadamente mudar aquele pequeno instante de horas. Em determinado momento a sessão é parada para que um professor, e depois Carol, intervenham, pedindo silêncio e respeito.

Observo os panos pretos pendurados de maneira irregular, ao mesmo tempo que escureciam a sala, também impediam a passagem de vento. A sala, também chamada de auditório, tem pilastras dispostas ao longo de todo o espaço, criando zonas cegas em relação à tela. Era uma caricatura mal feita de uma sala de cinema. Mas ao longo de três anos dentro das escola públicas, nos juntamos aos agentes da educação  na luta pela transformação das condições materiais dadas por um sistema perverso em condições materiais necessárias para a construção de uma nova política, como sugere Milton Santos em uma de suas falas. Me senti naquele momento em uma ação de guerrilha.

Cada depoimento no filme é emocionante. E assistí-lo naquele contexto fazia emergir uma série de sentimentos tão fortes quanto contraditórios. De repente o trabalho do Lanterninha me pareceu uma grande utopia. Formar cineclubistas em um ambiente onde deve-se formar público acima de tudo, me pareceu um sonho idílico. Um desânimo grande se abateu. Com Carol a meu lado, compartilhávamos esse sentimento de que a transformação que movia o projeto há três anos, não seria possível. A angústia pelo desinteresse dos meninos era diretamente proporcional à importância do conteúdo trazido no filme.
Restava esperar pelo debate e a chegada do nosso convidado Jorge Conceição, geógrafo, professor, militante do movimento cineclubista, que com sua atuação politicamente comprometida e acima de tudo, apaixonada, poderia dissipar a alienação instalada naquela sala. Em uma passagem do filme, Eduardo Galeano sentencia que neste momento, somos caricaturas tristes de modos de vida que nos impõem de fora, governados por sistemas de poder que cada dia nos convence que não há virtude maior do que a virtude do papagaio. E nesse jogo de repetição de ecos de vozes alheias,  o nosso desafio é oferecer ao mundo, um mundo diferente. Mas como isso será possível?

Jorge chegou pouco antes de terminar o filme, bem a tempo de vivenciar a inquietação e a agitação que a esta altura estava quase insuportável. Eu não dava conta do que sentia naquele momento. Profundamente mexida com a experiência eu não sabia o que esperar dali para frente. Em geral, os debates após os filmes são esvaziados. Pedi aos cinelcubistas que se colocassem a postos na porta do auditório pedindo aos alunos que não debandassem de vez. Assim que terminou o filme palmas e gritos animados fariam um desavisado crer que todos vibravam com o filme e não com o término dele.

Não houve uma debandada em massa. Os meninos mesmo dispersos, se dispuseram a ouvir os dois convidados, e foi aí que uma outra geografia entrou em campo. A postura de Jorge diante dos meninos era ao mesmo tempo desafiadora e acolhedora. A sala permaneceu lotada durante todo o espaço de fala dele, que como um maestro foi criando as condições para que a fala fosse democratizada, e aos poucos todos começavam a falar.



Para a alienação dos jovens, Jorge (a esta altura de boina, numa atitude hip hop) propunha o encontro, o olho no olho, a potência da geografia do amor, do afeto, como pregava seu antigo professor na faculdade de geografia, o mesmo Milton Santos. De maneira orgânica, os meninos vivenciavam e expressavam os reflexos da globalização perversa, que nos mantém alheios à nossa história e sobretudo à potência de transformarmos nosso futuro. No debate caloroso falamos de política, das próximas eleições, da ocupação do ambiente escolar e do lugar da educação na vida dos jovens. Movido e incomodado por um dos momentos da fala de Jorge, um menino levanta-se para questionar porque ele havia dito que as mulheres são mais inteligentes que os homens. Nesse momento abriu-se um campo de debate sobre a natureza humana, sobre a sabedoria do feminino na natureza, sobre o machismo, mais uma forma de totalitarismo, e sobre a necessidade de combater qualquer forma de redução ou totalitarismo em relação à mulher, que Jorge chamou da hegemonia do falo. Nesse momento me senti especialmente comovida porque sei que o machismo está de tal forma "conformado" na nossa formação social que ver os meninos sendo apresentados a uma nova forma de pensamento, baseada na compreensão do outro e no carinho era algo muito especial.

A participação atenta e em alguns casos entusiasmada dos meninos no debate, foi resgatando em nós o sentido do trabalho que fazemos há três anos, bem como recolocando a utopia desse mesmo trabalho no seu lugar de condição necessária para a transformação social que acreditamos vir através da arte e da educação. O sonho idílico existe sim, e mesmo que a transformação gerada pelo Lanterninha na vida desses meninos não seja, em muitos casos, palpável, ela é claramente visível. Todos naquele dia saíram de com algo aceso dentro de si.

Por fim, a citação de Sartre que dá início ao filme e que muito se aproxima do sentimento que nos une em torno de um ideal.

"É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico, e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições, e eu ainda sinto a esperança, como minha concepção de futuro."

Jean Paul Sartre



Por: Tenille Bezerra
Coordenadora Executiva do Projeto Lanterninha
tenillebezerra@gmail.com




segunda-feira, 14 de junho de 2010

Milton Santos

Assisti ao filme pela primeira vez na faculdade, afinal estamos no instituto Milton Santos. Mas muito antes, no 2º grau, li o livro que mudou a minha vida: Por uma outra Globalização, do próprio Milton Santos. O filme resgatou algo que está sempre comigo: o sentimento de que somos diferentes e de que ainda mais por isso somos importantes na reconfiguração do mundo, pois tal como ele está não dá. Essa sensação de que mesmo diferentes não estamos sozinhos e que mesmo protagonistas, cada qual de sua própria história, somos coadjuvantes da história do mundo. 

A iniciativa de criar o Lanterninha vem desse sentimento e o que é mais bacana é que todos que foram se juntando ao projeto e transformando-o no que é hoje, parecem compactuar com isso. Porque senão já teríamos desistido. Foi essa sensação que me assolou nessa quarta-feira durante a exibição especial no Landulfo Alves.

Me pareceu as primeiras exibições de 2008, quando a equipe era composta por 06 pessoas, mais sonhadoras ainda. Confesso que deu vontade de desistir. Chegamos ao colégio um pouco atrasados e nenhum cineclubista se encontrava, só Mariano apareceu dizendo que não sabia de nada. Como não vim na reunião de sexta passada, só fiquei sabendo do racha no cineclube mais admirado do Lanterninha na segunda a tarde. Fiquei no ar.

Na chegada ao Landulfo e no duro que demos sozinhos para prender panos pretos, montar equipamentos, organizar a sala, fiquei pensando se valia a pena tudo isso. Se não somos sonhadores demais, idealizadores demais, se não tenho que partir para outra, fazer outros projetos ou até mesmo retornar ao Lanterninha inicial, se preocupando em apenas exibir, esse apenas aqui como vicio do discurso, pois é uma barra exibir para estudantes tão afastados da cultura. Fiquei pensando que era muita ilusão nossa achar que podemos formar grupos cineclubistas com garotos que estão amealhados por uma educação sucateada há mais de 50 anos, por uma filosofia do consumo e da alienação.

Uma sensação de abandono, que acredito deve solapar os professores e gestores dessas escolas. Uma sensação de que nada vai mudar, de que estamos fazendo tudo em vão. Eu via aquele auditório lotado com os alunos fazendo pouco caso, conversando, ligando o celular e na tela um filme avassalador, para mim era impossível que eles não se identificassem: somos os terceiros mundistas, os esfomeados, os sem dente, sem teto, sem água, os negros, os que não valem nada, se for medido pelo o que temos no bolso. Não entendia como o filme, apesar de ter um discurso mais complexo e de ser documentário, ponto negativo já de começo, não deixava aqueles meninos calados, profundamente tristes com tudo aquilo que os espera. Afinal serão eles os próximos desempregados e continuarão sempre sendo os marginalizados, apesar  da TV de LCD que comprarão em tantas prestações que é difícil pensar se ainda estarão vivos para paga-las. Cheguei a parar o filme: Amauri, o professor convidado, falou do respeito, eu falei da identificação com o assunto. Mas não adiantou. Para piorar o mesmo professor me confessou estar envergonhado e perguntou como continuamos com tudo isso. Falei que estávamos acostumados, mentira, não vou me acostumar nunca.

Minha esperança era uma meia dúzia que estava atenta ao filme e a chegada de Jorge Conceição que pra mim conseguiria sacudir aqueles corpos torpes pela alienação castigante do capitalismo a que nos atrelamos. Para mim Jorge seria um cristo ressuscitado, que viria para salvar as almas perdidas. Outra professora disse ainda que a cada anos eles estão pior, eu repliquei que isso era obvio já que nada era feito para mudar as mentes.

O filme acabou, palmas de aleluia, graças a Deus que acabou! E entra Jorge. Com seu olho no olho, sua força de caráter, sua energia. Geográfo, aluno de Milton Santos, contador de histórias e parteiro. Em uma frase ele toma o auditório para si: quem é Bahia ou Vitória? Chegou lá no assunto que todo mundo gosta. De lá ele saiu para conduzir esse meninos de volta ao filme e conduzir a todos nós a um debate incrível que reascende a esperança e me fez compreender que nem tudo está perdido, não podemos desistir, ninguém tem esse direito. Os meninos se colocaram e o papo renderia ad infinito se as barrigas não roncassem nos retornando as nossas singelas realidades.

O grupo cineclubista em vias de desaparecer, apareceu no fim da sessão, se uniu na frente, orgulhosos de terem promovido aquele encontro, que apesar de não ter sido produzido por eles é fruto das reuniões de todas as terças, há 03 anos. Orgulhosos de se apresentaram na frente, fazendo parte desse processo. Convocaram mais gente, duas pessoas se inscreveram. Eu, no meu olhar de agradecimento para Jorge, tinha uma força renovada, uma mágoa do mundo acalmada e uma intuição de que já estamos formando a nossa rede: de afetos, de solidariedade, de compreensão, de troca e de apoio. Obrigada à todos que pensam em um mundo diferente. À Milton Santos e suas pesquisas sobre a nossa realidade, à Jorge e sua força da natureza, à Henrique e seu orgulho de ter um ideal, à Fábio semeador de plantas tão boas, à Tenille, à todos os Lanterninhas e à parceiros que financiam essa empreitada e que se mostram aguerridos e acreditam nessa idéia de mudar o mundo, para fazer o que já dizia Cazuza e que caiu a ficha no filme do João Jardim: Pro Dia Nascer Feliz.

Maria Carolina - Lanterninha de coração
Coordenadora Geral do Projeto Lanterninha
mariacarrolina@gmail.com